A palavra tem mesmo poder?

Nunca responder sem se colocar na frase. Foi institucionalizado o dito que condena todos os que dizem a primeira palavra deste parágrafo. Amarras, supressões, condenações, delimitações, Panopticon... diz-se que ao serem ditas qualquer uma dessas palavras nasce um anarquista - ironizo. Mas aonde está o sujeito quando esta máxima sobre a palavra “nunca” é cunhada? O sujeito está possivelmente na prosopopeia da palavra. O sujeito despromove de sentido a intenção e o sujeito ativo da comunicação, pois a norma empodera a palavra e ele, encarcerado, promove a norma: ignora a frase e a semântica e se suprime.


Onde haveremos, pois, de delimitar o homem se o condenarmos em sua própria supressão? A resposta para isso é que em meio a cada um dos meus erros de português há sempre um espaço para elogiar o próprio vernáculo e lembrar que o sujeito é omnipresente na linguagem. Não haja inveja e nem subordinação na vazão do homem ao mundo porque ele está em tudo e ao todo comunica, ainda com propostas de supressão de si em seu verbo calado. Condenar o homem suprimido é não notar que ele ainda está na frase, na situação, e a questão linguística consiste na qualidade do predicado ou, sem seu detrimento, a emergência do prejudicado: o ser que busca se esconder.


Se colocar na frase é marcá-la de si mesmo, dar à comunicação a qualidade do seu ser, seja no que suprime, seja no vazio. Não o vazio do que se desconhece que deve também muitas vezes ser suprimido, mas principalmente o vazio que se oferece intencionalmente como um cortejo ao ouvinte, para que ele possa transar neste vazio os seus méritos e próprias divagações.


O homem vem do vazio e nós o condenamos. Ele, atribuído de suas condenações, decide sair da lacuna: age ostensivamente, enfrenta a norma que o suprime e a utiliza contra aquele a quem ele condena por considerá-lo vazio. Poucas coisas podem ser tão dolosas quanto uma condenação vazia.



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